18 de
Dezembro de 2008
Igreja nos lares
Não como
método, mas como estilo de vida
Pr. João A. de
Souza Filho
Nota:
Impedido de falar, por motivo de doença no encontro de líderes sobre
igrejas nas casas, escrevi, a pedido de Pedro Arruda o material que
aí está. Obviamente que falta a fala do autor, mas sublinho em
negrito os pontos que precisavam ser melhor esclarecidos.
Introdução.
Sempre que este tema é
apresentado ou discutido a idéia que vem à mente das pessoas é que a
igreja nos lares é apenas um adendo ou uma estrutura funcional que
auxilia a igreja – e aqui me refiro a igreja como organização – em
sua missão na terra. Sim, porque a idéia de templo como local de
reunião, seja um galpão, um salão ou uma construção especialmente
feita para a reunião dos irmãos obscurece o valor do lar e o
arremete a um segundo ou terceiro plano. Neste estudo
abordaremos a igreja como reunião no lar à luz do Israel do AT, da
prática de igreja nos dois primeiros séculos e o lugar que tiveram
os lares ou as casas ao longo da história.
Os pontos em negrito indicam
que o autor precisaria explanar e esclarecer melhor.
I. A vida religiosa de Israel
no Antigo Testamento.
A tradição cristã
nos legou um conceito de igreja ou de templo sempre ligado a prédios
ou santuários como lugares de encontro do povo e da adoração a Deus.
A igreja virou sinônimo de prédio. O templo, lugar de adoração.
“Vamos nos encontrar às 15 h em frente da igreja”, e na realidade o
ponto de encontro é um prédio em algum lugar da cidade. Os
cristãos e as pessoas que evangelizamos e que vêm de uma tradição
cristã não conseguem conceber uma igreja sem prédios, encontrando-se
em lares, praças, bosques e praias, porque a mentalidade ocidental
inculcou na nossa cultura que para se adorar a Deus ou se reunir com
os irmãos faz-se necessário comparecer a um templo ou santuário. É
neste sentido que afirmo que culturalmente a idéia de igreja
reunindo-se nos lares tem de ser novamente re-conceituada e
re-ensinada, porque o que se ouve e o que se ensina é que a igreja
nos lares é um método a mais na estratégia de evangelização, quando
na realidade ela é a razão da existência da igreja.
Tomemos como exemplo a “igreja” do
AT, isto é, a nação de Israel. Havia um tabernáculo
no deserto que depois esteve em Gilgal, Betel, Siló, só para citar
essas localidades e depois Jerusalém. O tabernáculo foi substituído
pelo templo de Salomão e é a partir daí que os cristãos enxergam o
templo como local de adoração. O templo do AT é assunto que deve ser
tratado à parte.
O que quero afirmar é que o povo
tinha o compromisso de ir a Jerusalém para cultuar como nação três
vezes ao ano – mas nem todos tinham condições de ir até lá. Isto
quer dizer que os encontros em Jerusalém para celebrar a Páscoa, a
Expiação eram mais para manter a unidade religiosa da nação do que
como meio de culto a Deus, porque a vida religiosa de Israel era
diária, semanal e mensal nas casas, ou nas famílias. Jerusalém era
apenas um centro de referência religiosa e governamental, porque o
culto a Deus, a oração, a leitura da Lei e a guarda dos preceitos
eram feita nos lares. Portanto, a vida religiosa do povo de Deus não
ficava restrita a um local, mas ao lar de cada israelita.
Mais tarde as sinagogas
– que alguns afirmam haver surgido na época do desterro –
constituíam-se locais de encontros aos sábados para a leitura da lei
e para as orações. Havia várias sinagogas numa mesma cidade, graças
ao esforço benemérito de alguém mais abastado que edificava ou
separava um local para a leitura da lei. Mas, as sinagogas eram
limitadas praticamente ao dia de descanso, ou Sábado para a leitura
da lei.
Neste sentido não quero ser
prolixo porque entendo que meus leitores conhecem bem o
funcionamento da vida espiritual do povo de Deus no Antigo
Testamento.
II. A vida religiosa do Novo
Testamento (a transição sinagoga/igreja) nos dias apostólicos.
Certos textos bíblicos, quando mal
explanados podem dar uma idéia errada do templo dos dias do Novo
Testamento como se este fosse um local onde todo o povo entrava para
adorar a Deus. Exemplo disto é Atos 2.46: “Diariamente
perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e
tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração...”.
Muitos irmãos por terem um conceito errado de templo acreditam que
os primeiros cristãos se reuniam no templo de Jerusalém, e
esquecem que, tanto no templo do AT como do NT só entravam dentro
dele os sacerdotes para realizar os ofícios sagrados. Nem todo
levita ou sacerdote entrava ali, a menos que estivesse escalado,
isto é, que seu turno o obrigasse a entrar no santuário para
oferecer as oferendas.
Culturalmente o povo se reunia no templo,
como nos reunimos na praça central da cidade, porque ao redor do
templo funcionava não apenas a vida religiosa do povo, mas o
comércio, a venda de verduras, peixes, animais para o sacrifício,
etc. Um cidadão residente em Dã, vendia lá seu cordeiro que queria
ofertar em sacrifício para comprar outro em Jerusalém – no templo!
Jesus não condenou a vendagem de material, ele condenou os que
faziam do lugar um comércio lucrativo, pois o israelita com o preço
da venda em Dã não conseguia comprar um casal de pombos em Jerusalém
tal a ganância dos mercadores.
E como havia
pátios especiais para orações, os irmãos da emergente igreja para lá
se dirigiam a fim de orar, como Pedro e João, no episódio de Atos 3
que foram ao templo para a oração das 15 horas. A vida religiosa, no
entanto, continuava fora do templo, nas vilas e cidades de toda a
nação.
Deus
parece deixar bem claro que o verdadeiro templo é formado de pessoas
e não de tijolos. Nos dias de
Jeremias o povo zombava do profeta argumentando que Deus não
destruiria o lugar de sua habitação, o templo e por isso diziam,
“templo do Senhor! Templo do Senhor!”, como a dizer que Deus não
permitira que o templo, local de sua habitação fosse destruído.
Jeremias os advertia: “Não confieis em palavras falsas, dizendo:
Templo do SENHOR, templo do SENHOR, templo do SENHOR é este” (Jr
7.4) e Deus lhes dizia: “farei também a esta casa que se chama pelo
meu nome, na qual confiais, e a este lugar, que vos dei a vós outros
e a vossos pais, como fiz a Silo” (Jr 7.14). O povo tinha a idéia
de que em tempos de guerra podia se refugiar no templo e dizer:
“estamos salvos” (7.10). Mas, Deus lhes tirou toda esperança e
lhes dizia: “Vão a Siló, o primeiro lugar que escolhi para nele
ser adorado, e vejam o que eu fiz ali por causa da maldade de
Israel, o meu povo” (v 10).
E foi assim
que Jesus profetizou a destruição do templo de Jerusalém que ocorreu
no ano 70 da era cristã. Depois que o templo foi totalmente
destruído e queimado pela ocupação romana o povo judeu continuou com
sua vida religiosa, porque, na realidade, culturalmente as famílias
tinham uma vida religiosa centrada no lar e não num lugar. Desta
maneira cresceu a igreja, reunindo-se em casas e locais diversos, às
vezes vários grupos de irmãos numa mesma cidade em locais separados,
porque a essência da vida cristã não se resumia a um local, mas ao
lar.
Porque
Deus não precisa de templos materiais, de locais fixos para ser
adorado; (lembra-se do que
ele disse à mulher samaritana sobre a verdadeira adoração?) o
templo, na realidade é uma figura do verdadeiro templo – o conjunto
de pessoas que formam seu santuário. O templo de Salomão aponta
escatologicamente para a Igreja, o templo de Deus, sua casa de
oração. A casa de oração para todos os povos é a igreja!
Por mais
de trezentos anos, desde seu início até a época de Constantino a
igreja se reunia em casas sem precisar de um local chamado de templo
ou santuário. As casas eram adaptadas para a reunião da família de
Deus.
III.
A igreja subsistiu na história nas casas e lares dos fieis.
A fé e os valores cristãos foram
preservados nos lares e na vida em família. A igreja peregrina
jamais se amoldou ao sistema do mundo nem ao institucionalismo
organizacional. O sistema ou a instituição costuma preservar
mais os valores terreais que os espirituais.
Por isso, Deus sempre envia o fogo do avivamento para despertar seus
filhos, estejam estes em igrejas históricas ou igrejas novas. Na
história da igreja é possível perceber que a fé dos primeiros
apóstolos foi preservada e mantida nas casas da Itália, no Piedmont,
nos vales alpinos e revivificada mais coletivamente com Pedro Waldo.
A seguir, faço um resumo daquele
período da história para que nossos leitores entendam a verdadeira
função da casa e do lar.
O uso de casas e lares pelos irmãos
através da história é que determinou a continuidade da mensagem
evangélica. Os poucos registros históricos deixam entrever que a
revolução espiritual que antecedeu a Reforma e os avivamentos
subseqüentes tiveram lugar, prioritariamente nos lares. Assim como
os mosteiros serviram de berço para que as riquezas da palavra de
Deus fossem preservadas nas perseguições – cópias manuais das
escrituras e trechos da palavra de Deus, as casas ou os castelos em
feudos e colônias serviram de sementeira para as reformas
espirituais.
A cultura religiosa da Idade Média
exigia que as pessoas se reunissem em templos e catedrais para
comungar, ouvir sermões e dar provas de sua fé em Cristo. Numa
época em que a igreja institucional mantinha também um governo civil
reunir-se fora dos santuários era sinal de rebelião. Esta cena
passou a ser modificada com um dos pré-reformistas, Pedro Waldo
(1160). Nascido em Lyons, Pedro Waldo, um próspero comerciante e
banqueiro deu uma grande festa em sua casa, e foi levado ao
arrependimento e confissão de pecados por um dos convidados. (Os
que levaram Pedro Waldo ao novo nascimento não eram reformistas, mas
irmãos que pertenciam a uma geração de crentes fieis que ocuparam
desde o primeiro século até este período (ao redor do ano 1.100) os
vales da França e da Itália).
Logo depois de convertido Pedro
contratou tradutores que traduziram parte do evangelho no dialeto do
povo. Pedro Waldo vendeu seus bens, doou parte aos pobres e ele
mesmo se tornou um dos apóstolos waldenses despojados de qualquer
riqueza. Ele e os seguidores escolheram a pobreza e dependiam que
cada igreja, em cada localidade fizesse a necessária provisão para
que os membros apostólicos continuassem sua missão.
A primeira menção deste período da
história de que se reuniam em casas nos vales do Piedmont vem da
pena do historiador E.H. Broadbent: “Quando as casas não mais
comportavam e locais simples eram construídos, edificavam anexos, ou
casas junto as demais para abrigar e cuidar dos pobres e idosos...
Liam as escrituras, tinham adoração familiar todos os dias, e entre
os que lhes pregavam a palavra estavam pessoas treinadas e
capacitadas cultural e espiritualmente.” O próprio Papa Inocente III
(1198-1216) testemunhou que os leigos treinados pregavam e ensinavam
a palavra de Deus; e que os waldenses ouviam apenas os homens que
tinham bom testemunho de Deus em suas vidas.
1Assim, numa época em
que só o clero podia pregar e ensinar, Pedro Waldo liderou uma
equipe que revolucionou a Europa nos 400 anos seguintes.
Deve-se levar em conta que a igreja
institucional sempre tachou de hereges quaisquer movimentos
contrários aos seus ensinamentos; exemplo do que quero afirmar é
o conceito de que os albingenses eram heréticos, pois o que
se sabe sobre ele procede de opiniões contrárias, já que era um
movimento de busca pela santidade, daí seu nome, cátaros, ou puros.
A partir do século XII aparecem
registros de que os irmãos usavam casas onde pobres e enfermos
sobreviviam por doações de ricos benfeitores. Não eram conventos,
mas casas, residências, e os que nelas viviam eram conhecidos como
os paupérrimos de Cristo. 2
Duzentos anos depois, perseguidos pelo
Papa Clement VII (1380) os waldenses eram queimados e torturados; as
famílias que se refugiaram nas montanhas morreram de fome e
frio.
Não resta dúvidas de que a semente da
reforma germinava nas casas, também no período de Wiclyff, de
João Hus e dos Irmãos Unidos. Documentos que poderiam registrar
a história dos Irmãos, dos Pobres de Deus e da doutrina ensinada em
casas foram queimados. João Hus, a caminho do martírio em Constança,
acompanhado por uma guarnição de mil soldados viu uma fogueira
ardendo na praça da cidade onde seus escritos estavam sendo
devorados pelo fogo. Anos
depois os jesuítas se encarregaram de queimar os documentos e
registros escritos por esses pré-reformadores, como os dos pobres de
Deus, dos Irmãos e dos Amigos de Deus.
3 Broadbent relata:
“Assim como anteriormente (referindo-se à época de Pedro Waldo) a
literatura dos cristãos foi destruída e bem como a história escrita
por seus inimigos, também no século XVI fizeram a mesma coisa, e,
tendo em vista o linguajar violento comum daquele tempo é preciso
pesquisar quaisquer resquícios do que eles escreveram”.
4
Perseguidos desde os tempos de
Pedro Waldo, esses
irmãos que decidiram viver a vida cristã conforme o modelo de Cristo
e dos apóstolos, muitas vezes nem casas tinham nos vilarejos para
morar e construíam pequenos agrupamentos de casas nas montanhas,
como foi o caso dos Amigos de Deus de Oberland, cujo líder,
Tauler construiu com seus recursos refúgios nas montanhas para os
irmãos perseguidos. Tauler, um homem rico, usou de suas posses para
ajudar os obreiros e apóstolos que viajavam por toda a Europa.
Falava italiano e alemão e os registros históricos indicam que o
pequeno local que os irmãos tinham nas montanhas era simples e
modesto. Ele afirmou: “Não é melhor usar o dinheiro para ajudar os
pobres do que construir um convento?”.
5 A fé simples e
poderosa desses irmãos perseguidos, ameaçados, e lançados em
fogueiras, semearam a Reforma por toda a Europa séculos antes de
Lutero. Os próprios waldenses permaneceram por quase quatro
séculos nos vales e montes até os tempos da Reforma.
O que se percebe nas
entrelinhas da história é a existência de uma igreja orgânica
paralela à igreja institucional buscando viver os mandamentos de
Jesus Cristo. Por
isso durante séculos as fogueiras arderam por toda Europa queimando
mártires e livros.
Veja este dado da
história:
Um século depois da Reforma de Lutero
“foi solicitado ao Prior Marco Aurélio Rorenco, de Turim em 1630 que
escrevesse um relato contando a história e as opiniões dos
waldenses. Ele escreveu que os waldenses são tão antigos que não se
pode indicar o tempo em que surgiram, mas que, no século IX e X não
eram uma nova seita. Acrescentou que no século nono, longe de ser
uma nova seita eram considerados uma raça de fomentadores e
encorajadores de opiniões de pessoas que existiam antes deles.
Depois acrescentou que Cláudio, Bispo de Turim era reconhecidamente
um desses encorajadores, porque ele próprio negava reverência à
cruz, rejeitava a veneração e invocação aos santos e era o principal
destruidor de imagens. Em seu comentário sobre a epístola aos
gálatas, Cláudio ensinava abertamente a justificação pela fé e
apontava os erros da igreja que se desviara desta verdade.”
“Os irmãos que viviam nos vales nunca
perderam a noção de sua origem e de sua continuação histórica.
Quando a partir do século catorze os vales foram invadidos e as
pessoas tinham que negociar com os governos, eles sempre enfatizavam
suas origens. Ao Príncipe de Savoy, que os conhecia fazia anos,
podiam sempre falar abertamente de sua fé afirmando que o que criam
e praticavam vinha deste tempos imemoriais, desde os tempos dos
apóstolos. Em 1544 eles disseram a Francis I imperador da França:
“Esta confissão nós a recebemos de nossos antepassados, de pessoa a
pessoa. (sic) Esta nossa religião que praticamos não é coisa desses
dias, ou uma religião inventada alguns anos atrás, como afirmam
nossos inimigos, mas é a religião de nossos pais e de nossos avós,
sim, e de pais que viveram em tempos remotos. É a religião dos
santos e dos mártires, dos que faziam confissão apostólica.”
Quando entraram em contato com os
reformadores no século XVI disseram: “Nossos antepassados
afirmavam que existimos desde o tempo dos apóstolos. Em 1689 quando
os valdenses retornaram para seus vales, seu líder, Henri Arnold
afirmou que sua religião é tão antiga quanto o nome deles é
venerado, e cita o relato do inquisidor Reinarius, que num relato ao
Papa sobre a questão da fé explica que ‘eles existem desde os
tempos antigos’. Arnold relata que é difícil imaginar que este
bando de fieis já existia nos vales do Piedmont por mais de quatro
séculos antes da aparição desses extraordinários homens como Lutero
e Calvino e os subseqüentes faróis da Reforma. A igreja nunca foi
reformada para ter o título de evangélica. Os waldenses, de fato,
descendem dos refugiados da Itália que, depois de ouvirem o
evangelho pregado por Paulo, abandonaram seu lindo país e fugiram,
como aquela mulher do livro de Apocalipse, para estas montanhas
selvagens, onde até o dia de hoje guardam o evangelho, de pai para
filho, na mesma pureza e simplicidade dos dias de Paulo, o
apóstolo”. 6
Concomitante a isto, isto é, à preservação da fé em lares e grupos
que se refugiavam em vales e montanhas da Europa, a famosa
universidade de Oxford serviu de sementeira para que germinasse a
idéia da Reforma entre a classe estudantil e professoral. Foi a
partir da universidade de Oxford que John Wycliff influenciou a João
Hus e Jerônimo de Praga. O certo é que havia muita gente estudando
as escrituras e se reunindo em casas como resultado da influência
dos waldenses, de Wycliff na Inglaterra e seus seguidores, os
lolardos, e de João Hus na universidade de Praga.
Um
dos amigos de Zwinglio (enquanto este estava a favor dos Irmãos,
porque depois se tornou um dos maiores perseguidores dos
anabatistas), Felix Manz se reunia na casa de sua mãe, uma fiel
cristã. 7 Na grande perseguição
luterana e zwingliana contra os Irmãos (anabatistas) a história
registra que em Salzburg os irmãos que se reuniam na casa de um
pastor foram pegos de surpresa e um grande número decapitado e
afogado nas águas. (Existem dados históricos sobre a perseguição que
as duas igrejas institucionalizadas da época, a Romana e a Luterana
empreenderam contra os Irmãos, que eram mortos por afogamento,
queimados ou decapitados. Dezenas de relatos de mortes por
afogamento por parte dos seguidores de Lutero e de Zwinglio contra
os Irmãos mancharam as páginas da Reforma).
Um dos períodos da história em que
os irmãos passaram a se reunir em casas com maior freqüência, além
das reuniões regulares dominicais foi durante o avivamento nos dias
de Wesley e Whitefield através das chamadas sociedades. Elas
tiveram sua origem, não em Wesley, pois existem registros de que em
1678 criaram-se “sociedades” para fortalecimento e enriquecimento
espiritual dos irmãos. 8 “Tudo começou com os
sermões de avivamento do Dr. Antony Horneck na capela Savoy. Horneck
era o pai dessas sociedades desde seu começo.” O objetivo era
organizar grupos de jovens para orarem, estudar a Bíblia e
conferenciar entre si semanalmente. J. Woodward relata: “Eram
pessoas na meia estação da vida que pertenciam a igreja da
Inglaterra que foram tocadas com um profundo sentimento de pecado e
passaram a levar a sério o compromisso de fé”.9
A razão desses grupos existirem em meio a uma igreja
institucionalizada?
“Já que tinham os mesmos problemas
espirituais, e todos buscavam uma vida de santidade, deveriam se
reunir uma vez por semana dedicando-se a ouvir boas palavras e tudo
o que fosse para edificação deles. Para que as reuniões tivessem
ordem várias regulamentações foram estabelecidas para que o objetivo
não se perdesse” 10As regras
estabeleciam que as condições para que uma pessoa participasse das
reuniões – santidade pessoal, comprometimento com o grupo, com as
reuniões semanais da igreja, com o pároco, etc., - e deveriam
trabalhar pelo bem-estar social, cuidar dos enfermos e colocar as
crianças pobres nas escolas, opondo-se a todo tipo de jogo e
entretenimentos mundanos.
Mais tarde ficou estabelecido que cada
membro deveria trazer, pelo menos outra pessoa para as reuniões, o
que aumentou consideravelmente o número de membros. No ano de 1698
havia trinta e dois grupos apenas na cidade de Londres. As
sociedades ou grupos que mais cresceram foram as estabelecidas em
1701 por Samuel Wesley, pai de João Wesley em sua paróquia em
Epworth. Mais tarde George Whitefield (1737) começou a pregar para
esses grupos, e ele e João Wesley usaram as “sociedades” ou grupos
para trazer aviamento para toda Inglaterra.
Ao que parece a Igreja não se reunia
nas casas como um modelo para o avivamento, mas como forma de
permanecer fiel aos ensinamentos dos primeiros apóstolos abandonados
pela igreja dominante.
Nomes diferentes para os mesmos
remanescentes fieis. Seguindo a linha da história percebe-se que
esses Irmãos foram recebendo nomes diversos ao longo dos séculos,
especialmente dos pré-reformistas que os apelidaram pejorativamente
de irmãos, apenas irmãos desde os tempos do apóstolo Paulo; cátaros
ou albingenses, os puros de Alby; waldenses, devido a Pedro Waldo,
Lolardos, como seguidores de Wycliff, hussitas, por serem
descendentes de João Hus, anabatistas, porque batizavam de novo,
menonitas porque Simon Mennon os liderou por toda a Europa, e
moravianos porque, esses mesmos Irmãos que por 350 anos peregrinavam
pela Europa em busca de paz devido a perseguição foram acolhidos na
Morávia nas terras do Conde Von Zinzendorf.
Obviamente que as fontes históricas se
refiram aos albingenses como heréticos, aos anabatistas como seita,
mas, temos de levar em conta que os registros a respeito deles foram
feitos por seus inimigos.
Deus tem seus fiéis ao longo da
história. Que nossa casa sirva também de guardiã da Fé de nossos
pais.
A casa é o ninho da família...
Casa fala de aconchego, de lugar seguro, de amizade e de amor.
IV. Problemas e soluções para
que a igreja use os lares e casas como berço da fé, da comunhão e da
evangelização.
Para concluir estes meus
pensamentos é necessário abordar um aspecto negativo, que impede que
a igreja se reúna ou use os lares e casas de irmãos nas grandes
cidades.
1. Nas grandes cidades
brasileiras, o povo em geral, usa suas residências maiormente como
dormitório dos membros da família. Pais e filhos estão
demasiadamente envolvidos no trabalho e no estudo e não têm tempo de
se encontrar durante os dias da semana e quiçá aos domingos. (Porque
aos domingos passam o dia na “igreja”, no templo). A necessidade de
sustento e de acompanhar tecnologicamente o avanço da sociedade
empurra os membros da família para “fora” da casa. E, quando
em casa, divertem-se usando os meios eletrônicos, às vezes cada um
de per si. Internet, pesquisas, TV a cabo...
2. O espaço para se morar nas
cidades grandes está ficando cada vez mais reduzido. Nos prédios de
apartamento para a população em geral as salas de estar são
minúsculas, a cozinha um mero espaço onde só entra quem dela se
utiliza, e a violência impede que as pessoas circulem durante a
noite.
3. Os mais abastados que decidem
residir em condomínios de apartamentos isolam-se uns dos outros e
dos que residem fora dali. O acesso, às vezes, é impeditivo.
Agregue-se a isto o fato de que os apartamentos e residências não
possuem revestimento acústico, e as paredes têm “ouvidos”. Qualquer
som elevado de pessoas falando, orando ou tocando algum instrumento
é motivo de reclamação ao síndico, sujeitos multa...
4. Algumas regiões do Brasil – e
esquivo-me de mencionar quais para não ser mal interpretado –
as famílias não possuem a cultura do lar,
isto é, não costumam ter uma casa ou apto aconchegante para acolher
os amigos. Além do ponto numero 1 que limita o uso da casa como um
meio de vida para sair e entrar, os que possuem uma casa maior
sequer pensam em adaptá-la como local para reunir amigos ou a
igreja; geralmente os mais aquinhoados constroem salões para festas
e encontros – para comer e beber – mas nunca como local de adoração.
Quando falo em cultura do lar
refiro-me ao ninho da família, ao aconchego, ao acolhimento, à
hospedagem e à liberdade de qualquer amigo ou visitante se sentir
também em casa. Um local onde a mamãe tem liberdade de trocar a
fralda do filho; em que se pode beber água sem se solicitar ao
proprietário, etc.
Essa falta de cultura, como falei
anteriormente é fruto do corre-corre diário, quando se demora duas
ou três horas para se deslocar do trabalho até a casa e vice-versa,
porque todos os membros da família têm de trabalhar, inclusive a
esposa, o que lhes impede de usufruir as benesses do lar, como
reunião em família, conversas amigáveis ou reunir os amigos.
Em algumas cidades, como a que eu
resido, as pessoas se isolam atrás de muros altos e impenetráveis, e
sequer se consegue ver o telhado das casas – seja porque as pessoas
querem privacidade ou por medo da violência urbana. E isso já é
cultura.
Nas décadas dos anos sessentas
e setentas nossas casas não tinham muros altos, apenas uma cerca de
madeira para que animais não entrassem ou saíssem do pátio e os
vizinhos se sentavam na calçada no fim da tarde para conversar, rir
e jogar conversa fora. Ou conversavam olhando uns aos outros pela
cerca...
Viver assim hoje em algumas
cidades é impossível. E isto faz que a cultura do lar desapareça
para dar lugar a cultura tecnológica.
Como mudar este quadro?
1. Voltando-se ao estilo de vida
simples sem que seja necessário concorrer com o mundo. Não é
preciso possuir tudo que o mundo tenta nos impor.
Um estilo de vida simples agrada a
Deus. Hoje as casas dos irmãos têm televisão, computadores e
banheiros em cada cômodo... confortável para os membros da
casa, mas não disponíveis para os visitantes.
2. Edificando-se casas, pensando
sempre nos amigos e nos irmãos da igreja, e não apenas na nossa
família. Nos últimos anos venho acompanhando o progresso
material de alguns cristãos que se preocupam em ter sala de vídeo e
de TV; sala de estudos; sala de estar meramente decorativa; amplo
espaço para churrascos e festas, mas, em nenhum deles notei a
preocupação de reservar um espaço maior para reunir a igreja, para
orar e buscar a Deus. Existem salas de vídeo, mas não de oração;
salas de estudo, mas não de oração; salas com mesas de jogos, mas
jamais para oração e reuniões.
3. Nas grandes cidades onde é
impossível se reunir em apartamentos de condomínios devido às regras
impostas pela comunidade, é aconselhável que se busque alternativas
mais caseiras, como por exemplo, reunir esforços para comprar um
local e construir uma ampla casa – não um templo – com cozinha,
salas amplas adaptáveis, espaço para as crianças, etc. O espaço que
não se tem num apto. os irmãos passam a tê-lo conjuntamente na
“casa”. No entanto, o conceito de igreja que os especialistas em
crescimento de igreja nos empurram goela abaixo é de fazer
construções megalômanas para milhares de crentes. Isto tem de
ser urgentemente revisto.
4. Criar dentro dos apartamentos
um ambiente de lar apenas dispondo de cadeiras e lugares para que
“dois ou três” se reúnam em nome do Senhor. Mude-se o conceito de
que a casa é minha para, “minha casa, sua casa”!
Nossa experiência beste sentido
foi sempre positiva e a igreja que iniciamos em Porto Alegre
funcionava em nossas casas, especialmente na casa em que eu residia,
com vários encontros semanais, de casais com seus filhos e de jovens
com seus anelos e esperanças. O que contribuiu para o surgimento de
uma comunidade de amor e serviço, sinônimos de comunidade de
adoração.
1
BROADBENT, E. H. The Pilgrim Church, p 100
3
SCHAFF, Philip, Church History,
Vol VI p 107
4
BROADBENT, E.H. The
Pilgrim Church p 154
6
BROADBENT, E.H. The Pilgrim Church, pp 91-92
8
WOOD, Skevington A. The Inextinguishable Blaze,
Paternoster, p 30
9
WOODWARD, J. An Account of the Rise and Progress of the
Religious Societies in the City of London, p 34 in
SCHAFF, Church History
10
WOOD, Skevington, A Ibid p 34 The Inextinguishable
Blaze, Paternoster, p 30